
O Caos Organizado de uma Mente com TDAH
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
Ah, a procrastinação! Minha velha amiga e inimiga. Quantas vezes eu adiei escrever este post? Tantas que perdi a conta (culpa do TDAH, obviamente). Cada vez que começava, apagava tudo e pensava: "Isso está HORRÍVEL, quem você pensa que quer ser?". Será que existe um prêmio para "Rainha da Procrastinação"? Porque, se existir, talvez eu já tenha ganhado. Hoje consigo gerenciar melhor isso, desde que eu não pense que deve ser perfeito.
Confesso: sou uma escritora terrível. Nunca tive aquele blog famoso dos anos 2000, como era mesmo o nome? Redações? Um pesadelo. Vírgulas e pontos? Coloco quando o coração manda (não tenho orgulho disso, quero estudar mais português esse ano). Às vezes, pareço meio disléxica (será mais um brinde do TDAH?). Mas hey, quem precisa de gramática quando se tem criatividade, não é mesmo? (Por favor, não me julguem muito duramente, gramáticos de plantão!)
Ah, esqueci de me apresentar. Oi, eu sou a Kenya, tenho 30 anos, orgulhosamente neurodivergente e, acredite se quiser, psicóloga. Sim, você leu certo: uma psicóloga com TDAH atendendo pessoas com TDAH. Irônico, não? É como um bombeiro com piromania - perigoso, mas excitante!
Espero que o que eu estou tentando começar aqui não seja apenas mais um dos meus hiperfocos momentâneos (como os bordados, as aquarelas, cerâmicas, artesanato, bolos). Quem sabe vocês possam me ajudar com um pouco de "motivação externa"? Afinal, quem tem TDAH sabe: nossa motivação interna às vezes tira férias sem avisar.
Agora, vamos falar sobre como o TDAH se manifesta nas mulheres. Preparem-se para uma montanha-russa de sintomas que fariam até o mais paciente dos santos perder a cabeça:
1. Desatenção suprema: Detalhes? Que detalhes? Ah, aqueles que eu deveria ter notado há três horas atrás?
- Foco? Só se for no Instagram: Manter a atenção em tarefas? É mais fácil planejar e montar um negócio novo.
- Instruções são sugestões: Seguir instruções e completar tarefas? É muito difícil conseguir seguir as instruções para montar algum móvel, sou tão impaciente e impulsiva que vou tentando fazer por conta (claro que isso eu perco muito mais tempo).
- Organização é um mito: Eu limpo a minha casa todos os dias, meu marido chega em casa à noite e às vezes eu sou capaz de falar para ele "como você pode bagunçar tanto a casa?". Ele é um santo, eu arrumo e desarrumo em minutos, mas não consigo viver na bagunça, então às vezes procrastino alguma outra tarefa importante limpando a casa.
- Borboleta profissional: Me distrair é meu superpoder. Olha, um cachorrinho!
- Memória de Dori: Lembrar de atividades diárias? Só se eu tatuar na testa. Hoje o Google Agenda é tudo para mim. Mas sou capaz também de lembrar todos os nomes dos meus pacientes, seus familiares, amigos, e até amigos de infância… mas os meus? Quando preciso lembrar o nome de algum conhecido, não sei o que acontece.
E não para por aí! Nós, mulheres com TDAH, somos verdadeiras artistas da camuflagem. Tentamos nos encaixar nas expectativas sociais como se nossa vida dependesse disso. Spoiler: depende.
Gerenciar a si mesma, a família, a casa? Há! É como tentar malabarismo com pratos de porcelana (desde que não seja da Tânia Bulhões porque são muito caros). Mas ei, ninguém pode falar que não tentamos, que não nos esforçamos muito (até começar a ter crises de ansiedade). Nós tentamos! E quando falhamos (o que acontece com certa frequência), nos culpamos. Porque, obviamente, a culpa é nossa e não do transtorno que afeta nossas funções executivas, certo? (Inserir revirada de olhos aqui)
Socialmente? Podemos parecer um desastre ambulante. Fazer amigos? Mais fácil resolver a teoria da relatividade. Manter amizades? Esquecemos de responder uma mensagem e quando lembramos já achamos que se passou tempo demais e talvez seja melhor não responder, com isso todos acham que não nos importamos e somos egoístas que só pensamos em nós. E não me faça começar sobre relacionamentos amorosos. É como jogar roleta russa emocional (depois de muito tempo, há quase 7 anos eu tive muita sorte e encontrei um parceiro incrível), mas sei que muitos não têm um parceiro que valide, compreenda e ajude com seus déficits e excessos de comportamentos.
Ah, e as hipersensibilidades! Somos como princesas sensíveis a ervilhas, só que a ervilha é o mundo inteiro. Roupas com etiquetas? Tortura medieval. Sons altos? Apocalipse sonoro, eu tenho crises de pânico com obras de vizinhos, literalmente eu choro.
E as comorbidades? Temos uma coleção delas como quem coleciona selos. Ansiedade? Check. Transtornos de humor? Presente. Distúrbios alimentares? Às vezes. É como ganhar na loteria, só que ao contrário, principalmente se você é como a maioria e foi diagnosticada depois de adulta e todos achavam que era ansiedade ou depressão, e nunca pensaram que talvez depois se tornou uma ansiedade ou depressão por ter vivido uma vida com um TDAH não tratado (risos).
Mas calma, daqui a pouco vai parecer que eu sou psicóloga e, ao invés de "fazer com que as pessoas tenham esperança e se sintam melhores", estou jogando um balde de água fria e falando que a sua vida vai ser uma droga. Nem tudo são espinhos (embora às vezes pareça). Somos criativas, empáticas (às vezes até demais, né?), resilientes e, acima de tudo, experts em encontrar soluções não convencionais para problemas convencionais. Afinal, quem mais conseguiria fazer caber tantas coisas na gaveta da bagunça?
Então, da próxima vez que você encontrar uma mulher que parece estar constantemente lutando contra um inimigo invisível, lembre-se: pode ser TDAH. Ou ela pode estar apenas tentando lembrar onde deixou as chaves... pela quinta vez hoje.
E você, se identifica com algo disso? Compartilhe nos comentários! Vamos criar um clube dos desatentos anônimos (se conseguirmos lembrar de comparecer às reuniões, claro).
Lembre-se: seu TDAH não te define, mas com certeza torna sua vida muito mais... interessante. Abrace o caos, ria das suas trapalhadas e, acima de tudo, seja gentil consigo mesma. Afinal, embarcar nesse mundo com um cérebro TDAH é um ato de coragem diário.
E agora, se me dão licença, preciso ir procurar onde deixei meu celular... ah, está na minha mão. Sempre.