
Quando a Psicóloga também fica "Paralisada": Lidar com a Sobrecarga no TDAH
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Muitas vezes, as pessoas pensam que, por eu ser psicóloga, tenho as "chaves do reino" da organização. Imaginam que a minha agenda é um monumento à produtividade e que o meu cérebro funciona como um relógio suíço.
A verdade? Eu também tenho TDAH. E, tal como muitos de vocês, também luto contra aquela sensação avassaladora de ter "abas a mais" abertas no navegador do meu cérebro.
A sobrecarga (ou o famoso overwhelm) não escolhe diplomas. Ela acontece quando o nosso córtex pré-frontal (aquele que muitos chamam de o "maestro" do cérebro) tenta processar demasiada informação ao mesmo tempo e acaba por baixar a batuta e desistir. É aí que surge a paralisia: queremos fazer tudo, não sabemos por onde começar e acabamos por não fazer nada, sentados no sofá com um sentimento de culpa paralisante.
Hoje, quero partilhar (humildemente) como eu, enquanto profissional e enquanto pessoa com TDAH, lido com estes momentos de "curto-circuito".
1. Tire o ruído da cabeça (Literalmente)
O cérebro com TDAH é um péssimo armazém, mas um excelente processador. Quando sinto que a ansiedade está se aproximando, a primeira coisa que faço é o que chamo de "esvaziamento cerebral". Pego minha agenda de papel, abro no dia em que estou e (ou abro uma nota no celular) e escrevo absolutamente tudo o que está ocupando espaço ali: desde "pagar a conta da luz" até "aquela ideia para um post que tive às três da manhã".
Ao colocar isso “pra fora”, retiro o peso da memória de trabalho, como se eu esvaziasse mesmo a memória e organizasse tudo em prateleira, e não parecendo aquela pilha de roupas na cama que você já nem sabe o que está limpo ou sujo. Se está no papel, o meu cérebro já não precisa de gastar energia tentando não se esquecer.
2. A Regra do "Apenas Um"
O grande erro na sobrecarga é tentar priorizar cinco coisas ao mesmo tempo. Para o nosso cérebro, se tudo é importante, nada é importante. Eu faço essa pergunta para mim: "Se eu pudesse fazer apenas uma coisa hoje para me sentir menos stressada amanhã, qual seria?". Escolha uma. Ignoro o resto por agora. O sucesso gera dopamina, e a dopamina é o combustível que nos ajuda a passar para a tarefa seguinte.
3. Reduza a estimulação sensorial
Muitas vezes, a sobrecarga não é apenas visual ou de tarefas, é sensorial. Se estou tentando focar e sinto que estou prestes a explodir, verifico o meu ambiente:
- A luz está forte?
- Há ruído de fundo irritante?
(geralmente é sempre uma obra do vizinho) - A minha roupa está apertada?
Colocar uns auscultadores com cancelamento de ruído ou mudar para uma divisão mais escura pode fazer a diferença entre um colapso e uma tarde produtiva, e se eu não consigo alterar nada disso, e vejo que realmente não conseguirei “ser produtiva”, por exemplo com a obra do vizinho que nem mesmo com um abafador de ruido melhora, eu simplesmente abro mão e vou fazer outra coisa.
4. Parta a pedra (em pedaços minúsculos)
Dizer "vou arrumar a cozinha" é vago e assustador para um cérebro com TDAH. Quando uma tarefa parece uma montanha, eu parto-a em grãos de areia. O objetivo não é o destino final, mas sim o próximo micro-passo.
5. Pratique a Gentileza Radical
Esta é a parte onde a psicóloga fala mais alto. A vergonha e a autocrítica são os maiores inimigos do TDAH. Quando nos culpamos por estarmos paralisados, aumentamos o cortisol e tornamos a execução ainda mais difícil.
Aceitar que o seu cérebro funciona de forma diferente não é uma desculpa; é uma estratégia. Se hoje o seu sistema operativo está precisando reiniciar, seja gentil consigo mesma. Respire. Amanhã haverá uma nova oportunidade.